Diário direto do Curdistão no Iraque 28.04

A ideia que os brasileiros que nunca estiveram no Iraque têm sobre o país é quase sempre a mesma: um lugar cercado por guerras e ódio, todo destruído, cheio de miséria material e física. A relação que sempre tive com o Iraque não passava das comparações com o lugar onde moro no Brasil. Vivo em São Paulo no distrito do Jardim Ângela, onde, em certa época, a comparação com o Iraque era enorme. Passei minha adolescência ouvindo que o Jardim Ângela era mais perigoso que o Iraque. Há pouco tempo saiu na Folha que o bairro onde passei minha adolescência tem o IDH pior do que o Iraque hoje em guerra…

Nós estamos no Norte do Iraque, numa região autônoma chamada Curdistão. As coisas aqui, apesar de tudo, são tranquilas. Mas a vida não está fácil. Em 2013, a economia do Curdistão estava muito forte e as pessoas viviam muito bem, principalmente por causa do petróleo. Construíam casas, compravam carros etc. Os curdos são muito preocupados com a aparência. Estão sempre muito bem vestidos, com os cabelos muito bem penteados. As crianças que chegam até nós estão sempre arrumadíssimas. Parecem que vão para uma festa. E quando recebem elogios por sua beleza, só faltam nos dizer “é assim todo dia, tio!”

De uns tempos pra cá, muitas coisas mudaram por aqui. Os jornais dizem que mais de dois milhões de refugiados vivem hoje no Curdistão. Muitos são sírios curdos e pessoas da etnia yazidi, expulsos de suas casas pelo Estado Islâmico.
O clima é de muita tensão, mas as pessoas não querem mais falar sobre possibilidades. Estão cansadas disso. As disputas territoriais aqui no Iraque e nesta parte do mundo é constante. São tantos países envolvidos: Turquia, Iraque, Curdistão, Irã, Estados Unidos e, mesmo assim, o Estado Islâmico continua fazendo o que faz. Há muito interesse em libertar Mossul, mas também há discussões sobre o que fazer com a cidade depois. Quem vai cuidar dela? Aí começa o problema. Todos querem ter um “terreninho” lá.

Ontem, sexta-feira, foi dia de descanso, dia de orações, dia de passear com a família. Para nós, dia de dormir um pouco mais e de tomar café mais tarde. Dia de preparar algumas coisas que ainda faltam para as oficinas.

Decidimos ir para as montanhas atrás dos Campos Berserve I e II, um lugar fantástico! Um local de encontro e de piquenique para muitas famílias depois das orações. Ali eles comem, dançam, jogam vôlei, futebol e tiram selfies a tarde inteira. Ou seja, levam uma vida normal. Por algumas horas, tudo parece ser diferente. Eu gosto muito de ver como os curdos vivem com suas famílias e como cuidam delas.
O passeio foi muito bom! Subir as montanhas foi importante para mim. Da última vez que estive no Curdistão, não pudemos caminhar pelas montanhas em Duhok, pois o exército estava lá. Desta vez, nas montanhas aqui de Zahko, foi tranquilo.

Lá de cima é possível ver o tamanho dos campos Berserve I e II. Os dois campos juntos já são maiores do que o bairro Berserve. Lá de cima, dá para ver também as diferenças entre um campo e outro. O Berserve I é muito apertado. As famílias não têm muito espaço físico entre uma tenda e outra.
O pior de tudo é que os banheiros ainda não são integrados às tendas. As pessoas precisam caminhar uma certa distância para usar os banheiros. Muitas mulheres têm sido assediadas nesse caminho. Muitas já não vão sozinhas aos banheiros à noite. Várias delas têm sofrido com infecções urinárias por segurarem a urina por muito tempo.

Um outro problema geral nos campos tem sido a diabetes. Muito açúcar e quase nada de atividade física. E com a chegada do verão, quando o calor realmente é muito forte, a tendência é se movimentar cada vez menos.

Campos Berserve I e II vistos do alto: dois milhões de refugiados vivem hoje no Curdistão

As oficinas com os jovens têm dado muito certo. Infelizmente a adesão deles não foi tão grande, mas os que chegaram estão se empenhando bastante. Muitos são tímidos, têm 11 e 12 anos. Se perguntamos, dizem que têm 13 e 14, pois sabem que as oficinas foram pensadas para jovens acima dos 13.
O engraçado é que quando perguntamos para os recém-chegados porque vieram só agora, muitos respondem que foram enviados por amigos que não não puderam vir por causa das aulas. É como se fossem seus representantes.
A oficina de música tem sido bem divertida. A mistura de músicas africanas com o jeito de cantar dos curdos sempre rende muitas risadas… A oficina de esporte e circo tem trazido muitos gritos 🙂 Na quinta eles fizeram saltos à distância e hoje, saltos em altura. Depois sempre jogam voleibol, com todas as regras, juízes etc. As oficinas de teatro e pintura são mais tranquilas.
À tarde temos oficinas de trabalhos manuais e de costura. Eu estou com os garotos construindo luminárias de papel. Tem sido uma grande alegria vê-los tão concentrados. Muitos parecem nunca ter usado uma tesoura. Outros têm dificuldade para cortar na linha, mas estamos todos nos ajudando.
Quando nosso carro chega, eles já correm para a sala para formar a nossa roda e fazer nosso ritual: um verso, uma canção e um ritmo. Outros já me olham e fazem o sinal da tesoura e logo começamos o trabalho. Na hora da pausa, eu tenho que sair da sala para que eles saiam.

Oficina de trabalhos manuais: tranquilidade rara na vida dos jovens que moram nos campos

Em cada centro de proteção à infância temos um caseiro. Nos os chamamos carinhosamente de chefes. Tenho tido mais contato com os chefes do Chamishku e do Berseve II. Esses senhores são figuras incríveis. Sempre nos recebem com muito carinho. Estão sempre preparados para nos oferecer um chá. Se precisamos de alguma coisa, correm para nos atender. Mesmo se dizemos redi redi (devagar), eles continuam correndo.
O chefe do Chamishku recebeu um telefonema hoje à tarde e entrou em desespero. Parece que a sua irmã que estava presa pelo Estado Islâmico conseguiu fugir e apareceu em Dohuk. Ele pediu a nossa permissão para ir buscá-la. Amanhã deveremos saber o que realmente aconteceu.
Esses chefes são pessoas muito queridas. Cuidam dos centros como se fossem suas casas. Muitas vezes eu os pego morrendo de dar risada com as brincadeiras das crianças. De vez em quando eles até entram na roda ou numa partida de voleibol.
O chefe do Berseve me pegou limpando a sala e ficou desesperado. Me explicava que limpar a sala era trabalho dele. Ele estava sério. Eu olhei pra ele e disse que o ajudaria para terminamos mais rápido e termos mais tempo para tomarmos chá juntos. Ele me olhou e concordou.

Reinaldo e o “chefe” do campo Berserve I: boa companhia para um chá

É impressionante como todos aqui têm uma história louca para contar. Cada história mais louca e mais doentia que a outra. Histórias que só de imaginar me arrepiam e me custam o sono. Mas quando vejo esses jovens sentados, cortando papel numa tranquilidade e tão concentrados, percebo o quanto esse momento de sossego é tão importante para eles. Suas tendas estão sempre cheias. O campo está sempre cheio, as escolas estão sempre cheias. Em nosso centro, conseguimos duas horas só para eles. Parece pouco, e é mesmo. Quando chega a hora de nos despedirmos, eles ficam tristes. Algumas vezes, fingimos que esquecemos o horário para que eles possam ficar mais tempo conosco, mas sabemos que nossos motoristas também têm suas famílias e querem ficar com elas.
Muitas pessoas me perguntam se tenho medo de estar aqui. Claro que tenho! Apesar do sossego que Zahko sempre nos trouxe, sabemos que a qualquer momento podemos ter de pegar nossas coisas e partir. Sabemos disso, mas quando estou com as crianças e agora com os jovens, percebo que o maior medo é de o mundo esquecer das milhões de pessoas que perderam suas casas e que hoje vivem em campos. Percebo que tenho medo de os projetos não serem mais financiados, pois sempre nos esquecemos das desgraças dos outros.
Hoje sabemos que as pessoas vivem, em média, 17 anos nos campos. Alguns conseguem sair em menos tempo. Outros nascem e morrem neles, sem nunca ter a oportunidade de conhecer outro local…
Numa das minhas viagens à Alemanha, vi na estação de trem central de Karlsruhe um cartaz que dizia que a pior catástrofe é o esquecer das catástrofes. Tenho percebido que, na maioria das vezes, nós nem sabemos delas…

A Maia também está no grupo de jovens!!! Todos nós sabemos que ela não tem a idade que pensamos para os nossos jovens, mas quero ver quem tem coragem de dizer isso pra ela 😉
Dreng Kewtm debê birrom! Está tarde, tenho que dormir!
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Reinaldo Nascimento é terapeuta social, educador físico e cofundador da Associação da Pedagogia de Emergência no Brasil. Ele está numa intervenção no Curdistão/Iraque coordenada pela instituição alemã Amigos da Arte de Educar, que desde 2013 desenvolve um projeto de pedagogia de emergência na região.

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