03. Maio – Diário de intervenção | Curdistão, Iraque

Nesta parte do mundo onde estamos trabalhando, todos os desejos precisam ser feitos com cuidado. Alguns dias depois da nossa chegada, caiu uma leve chuva, que deixou o ar mais limpo e as paisagens mais bonitas. Mas as pessoas sempre diziam que precisava chover mais. Muito mais.

E foi exatamente o que aconteceu ontem e hoje. Choveu muito. Chuva com granizo. Em alguns momentos, parecia São Paulo! O trânsito parou, as ruas ficaram alagadas. O esgoto entupido vazou e o cheiro era muito forte. A Jéssica precisou de duas horas e meia para fazer um percurso que está acostumada a fazer em uma hora.

Nos campos, a agonia de sempre. Quando faz muito calor, nos perguntamos como as pessoas aguentam. Quando há tempestade de areia, nos fazemos a mesma pergunta. Ontem ficou claro o desespero de muitos colegas. Vários pediram para sair mais cedo das oficinas para ver se estava tudo bem em casa. Muitas barracas ficaram danificadas. Muitas ruas esburacadas.

Nossos contêineres são fortes e bem cuidados e, mesmo assim, havia goteiras em vários lugares. É fácil entender o desespero de quem vive numa barraca de lona. Sempre me pergunto se essas barracas têm validade. Por quanto tempo se pode viver nelas?

Ouvimos muitas histórias por aqui, mas pouco, ou quase nunca, se ouve sobre o futuro destes campos. Ninguém sabe ao certo o que acontecerá, mas a vida tem seguido seu rumo. O comércio no campo Chamishku é bem intenso. Pode-se comprar de tudo. Tudo mesmo. Legumes, roupas, eletrônicos, eletrodomésticos usados etc.

As pessoas já estão aqui desde agosto 2014, quando foram expulsas de suas casas pelo Estado Islâmico. Algumas já voltaram ou estão voltando, mas a maioria tem medo, muito medo. A ideia de passar novamente o que passaram assusta e ninguém quer mais correr riscos…

O Maná, que estava feliz por poder saber que sua casa não fora tão destruída como imaginava, não poderá retornar para lá. Sua ideia era ir mais uma vez para a frente da guerra e de lá partir para sua cidade natal, mas a situação entre o PKK e os Peshmergas não anda bem e eles estão lutando em Sinjar. Acredita-se que o Estado Islâmico tenha assassinado mais de 5.000 pessoas da etnia yázidi que viviam em Sinjar.

Em dezembro de 2014, os Peshmergas, o PKK e outros exércitos começaram uma ofensiva para expulsar o Estado Islâmico de lá e hoje estão brigando entre eles. E os yázidis novamente sofrem e já não sabem quando poderão voltar.

Ontem eu vi o pequeno-grande Alkan. Estava correndo nas ruas do campo. Como tínhamos compromisso, não pude descer do carro para falar com ele. Alkan estava com aquele sorriso estampado na cara. Os colegas dizem que de vez em quando ele aparece para saber quando poderá voltar. Como são muitas crianças nos campos, decidimos receber grupos que ficam conosco por três meses.

Ontem também foi o dia de conversas com os pais do Chamishku, que pareciam muito gratos. A Eli, nossa enfermeira, estava bem tocada. Os pais não paravam de nos agradecer e dizer que, que desde que estão conosco, seus filhos dormem e comem melhor e são mais felizes. Alguns nos relatam que as crianças pararam de desmaiar. A conclusão da maioria é que a estrutura, o ritmo, as brincadeiras, as atividades, o carinho e o respeito por essas crianças é fundamental.

Uma mulher que perdeu o marido e hoje precisa cuidar sozinha de oito filhos consegue ter um pouco de sossego enquanto alguns deles estão conosco.

Alguns pais até fecharam suas lojas para estar no encontro. Isso é realmente um reconhecimento por nosso trabalho, pois a maioria deles vive dessas tendas, desses pequenos negócios.

Eu vejo que muitos pais estão desesperados. Viver em barracas, problemas com água, iluminação e banheiro. Não ter um trabalho. A educação dos filhos está totalmente comprometida. As escolas não conseguem receber todos os alunos e os professores também estão precisando de ajuda. Mesmo assim, não se pode desistir, diz uma mãe. É preciso olhar para a frente.

Oficina de costura

Hoje foi o nosso último dia de oficinas para os jovens. Amanhã serão as apresentações. Eu consegui terminar todas as luminárias. Ficaram lindas mesmo! Deu muito trabalho, mas ficaram lindas! O engraçado foi perceber que alguns jovens desmontavam as luminárias em casa para voltar e ficar mais um dia conosco. A oficina de costura também terminou.

Amanhã teremos apresentações de todos os grupos. Muitos estão nervosos, mas dará tudo certo!
Ratá Sube (até amanhã)

P.S.: Desculpem-me por não escrever todos os dias. Realmente não dei conta.
Um forte abraço e obrigado pelas mensagens de carinho, apoio, força.

Reinaldo Nascimento é terapeuta social, educador físico e cofundador da Associação da Pedagogia de Emergência no Brasil. Ele está numa intervenção no Curdistão/Iraque coordenada pela instituição alemã Amigos da Arte de Educar, que desde 2013 desenvolve um projeto de pedagogia de emergência

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